Eu sempre me surpreendo com a capacidade de resistência do corpo humano. Quando acho que nosso organismo é fraco, acontece alguma coisa, ou comigo ou com alguém próximo de mim, que me mostra como nosso corpo é capaz de resistir às mais bruscas variações de ambiente. Basicamente, se a gente sair do deserto do Atacama e andar por um caminho hipotético até o topo do Monte Everest, num intervalo de 24 horas, a gente sobrevive. Claro, tem gente que morre, mas isso só acontece porque a gente é gente.
A gente só morre porque é gente.
Mas existem humanos verdadeiramente resistentes, que permanecem aí, por muito mais tempo que os outros membros de suas famílias, muito mais que seus amigos, que enterram todos os conhecidos e até mesmo os filhos.
É claro que a gente acaba se acostumando com referências ridículas de resistência humana, como os participantes do BBB, e acha que ser resistente de verdade é ficar um dia dentro de um carro com outras pessoas, pra ganhar esse carro no final do processo, no meio de um enorme pólo estrutural cravado em plena Mata Atlântica, num dos lugares mais agradáveis do planeta. Isso não é ser resistente, gente. Isso é ser preguiçoso.
Agora a gente olha para a cracolândia, em São Paulo, e tem uma amostra real do quão ferrado um corpo pode estar, mas ainda assim aguentar um pouco mais de tranco e avaria. Tem gente ali que só come pão, cachaça e crack há anos e ainda está na rua, jogando pedra em equipe de jornalismo da Globo. Quer dizer, ainda acha ânimo pra começar uma revolução.
É por isso que as pessoas estão alvoroçadas com a cracolândia. Porque ali pode estar o centro duma revolução. Cheirando a pombo e cachaça.
É claro que os governantes não perceberam um pequeno detalhe antes de começar essa patética ação de limpeza humana: que a cracolândia, senhores, é móvel. Ela não existe realmente, ela só existe dentro das cabeças das pessoas e, por isso, ela é indestrutível e continuará em movimento. Se o governo quer ajudar os viciados (o que já ficou claro que não é a intenção principal nesta ação) será preciso entrar nas cabeças dessas pessoas. Que não as tratem como lixo puro. É por isso que devemos parar de usar o termo “limpeza”. Eu usei. Eu peço desculpas.
Eu olho para aquelas pessoas e não consigo parar de pensar que muitos devem estar ali porque falaram a verdade. Porque foram honestos. Porque não aceitaram as imposições de uma família autoritária. Porque simplesmente não aceitaram. Muitos fugidos, claro. Às vezes dos maus tratos dos pais, muitas vezes dos assédios sexuais de membros próximos da família.
Não é o caso de defender todos os viciados, claro que não, afirmando que eles não tiveram opção, eu não estou aqui na função de defender ninguém. Não seria muito existencialista da minha parte. Sei até que muitos ali são vagabundos da mais alta estirpe, que só querem usar drogas o tempo todo e vão aproveitar o embalo do momento para defender seus direitos de vagabundos com previdência.
O crack é a previdência do abandonado.
De um lado ou do outro a verdade é apenas uma: se a sociedade insistir nesta tática atual de “assistência” usando a força bruta da Polícia Militar de São Paulo (e ainda achar bonito) vai encontrar resistência, claro, muita resistência. E eficácia nenhuma. Os viciados vão para outros lugares. As pessoas ficarão mais violentas. Alguém já viu uma crise de abstinência de um viciado em crack? É dor pura.
E tudo isso acontece enquanto o crack da televisão brasileira, o Big Brother Basil, está no ar, com os mesmos índices de audiência de sempre. Tudo porque a gente tem medo de olhar a miséria pela janela. Tudo porque temos medo de que a miséria olhe de volta pra gente.
Ela olha, sempre; mas a gente desvia o olhar.
E liga a televisão.
Ah, a humanidade.
[CATO ALBERICO RIBEIRO]
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