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domingo, 29 de janeiro de 2012

O TROCO INTELIGENTE DE DANILO GENTILI

(Faz um ano que aconteceu isso, se não me engano, mas vale muito bem para nossos dias atuais, infelizmente)






O humorista Danilo Gentili postou a seguinte piada no seu twitter:


"King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?"
A ONG Afrobras se posicionou contra: "Nos próximos dias devemos fazer uma carta de repúdio. Estamos avaliando ainda uma representação criminal", diz José Vicente, presidente da ONG. "Isso foi indevido, inoportuno, de mau gosto e desrespeitoso. Desrespeitou todos os negros brasileiros e também a democracia. Democracia é você agir com responsabilidade" , avalia Vicente.
Alguns minutos após escrever seu primeiro "twitter" sobre King Kong, Gentili tentou se justificar no microblog:


"Alguém pode me dar uma explicação razoável por que posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa, mas nunca um negro de macaco?"(GENIAL) "Na piada do King Kong, não disse a cor do jogador. Disse que a loira saiu com o cara porque é famoso. A cabeça de vocês é que têm preconceito."
Mas, calma! Essa não foi a tal resposta genial que está no título, e sim ESTA:


"Se você me disser que é da raça negra, preciso dizer que você também é racista, pois, assim como os criadores de cachorros, acredita que somos separados por raças. E se acredita nisso vai ter que confessar que uma raça é melhor ou pior que a outra, pois, se todas as raças são iguais, então a divisão por raça é estúpida e desnecessária. Pra que perder tempo separando algo se no fundo dá tudo no mesmo?


Quem propagou a ideia que "negro" é uma raça foram os escravagistas. Eles usaram isso como desculpa para vender os pretos como escravos: "Podemos tratá-los como animais, afinal eles são de uma outra raça que não é a nossa. Eles são da raça negra".


Então quando vejo um cara dizendo que tem orgulho de ser da raça negra, eu juro que nem me passa pela cabeça chamá-lo de macaco, MAS SIM DE BURRO.


Falando em burro, cresci ouvindo que eu sou uma girafa. E também cresci chamando um dos meus melhores amigos de elefante. Já ouvi muita gente chamar loira caucasiana de burra, gay de v***** e ruivo de salsicha, que nada mais é do que ser chamado de restos de porco e boi misturados.


Mas se alguém chama um preto de macaco é crucificado. E isso pra mim não faz sentido. Qual o preconceito com o macaco? Imagina no zoológico como o macaco não deve se sentir triste quando ouve os outros animais comentando:


- O macaco é o pior de todos. Quando um humano se xinga de burro ou elefante dão risada. Mas quando xingam de macaco vão presos. Ser macaco é uma coisa terrível. Graças a Deus não somos macacos.


Prefiro ser chamado de macaco a ser chamado de girafa. Peça a um cientista que faça um teste de Q.I. com uma girafa e com um macaco. Veja quem tira a maior nota.


Quando queremos muito ofender e atacar alguém, por motivos desconhecidos, não xingamos diretamente a pessoa, e sim a mãe dela. Posso afirmar aqui então que Darwin foi o maior racista da história por dizer que eu vim do macaco?


Mas o que quero dizer é que na verdade não sei qual o problema em chamar um preto de preto. Esse é o nome da cor não é? Eu sou um ser humano da cor branca. O japonês da cor amarela. O índio da cor vermelha. O africano da cor preta. Se querem igualdade deveriam assumir o termo "preto" pois esse é o nome da cor. Não fica destoante isso: "Branco, Amarelo, Vermelho, Negro"?. O Darth Vader pra mim é negro. Mas o Bill Cosby, Richard Pryor e Eddie Murphy que inspiram meu trabalho, não. Mas se gostam tanto assim do termo negro, ok, eu uso, não vejo problemas. No fim das contas, é só uma palavra. E embora o dicionário seja um dos livros mais vendidos do mundo, penso que palavras não definem muitas coisas e sim atitudes.


Digo isso porque a patrulha do politicamente correto é tão imbecil e superficial que tenho absoluta certeza que serei censurado se um dia escutarem eu dizer: "E aí seu PRETO, senta aqui e toma uma comigo!". Porém, se eu usar o tom correto e a postura certa ao dizer "Desculpe meu querido, mas já que é um afrodescendente, é melhor evitar sentar aqui. Mas eu arrumo uma outra mesa muito mais bonita pra você!" Sei que receberei elogios dessas mesmas pessoas; afinal eu usei os termos politicamente corretos e não a palavra "preto" ou "macaco", que são palavras tão horríveis.


Os politicamente corretos acham que são como o Superman, o cara dotado de dons superiores, que vai defender os fracos, oprimidos e impotentes. E acredite: isso é racismo, pois transmite a ideia de superioridade que essas pessoas sentem de si em relação aos seus "defendidos"


Agora peço que não sejam racistas comigo, por favor. Não é só porque eu sou branco que eu escravizei um preto. Eu juro que nunca fiz nada parecido com isso, nem mesmo em pensamento. Não tenham esse preconceito comigo. Na verdade, SOU ÍTALO-DESCENDENTE. ITALIANOS NÃO ESCRAVIZARAM AFRICANOS NO BRASIL. VIERAM PRA CÁ E, ASSIM COMO OS PRETOS, TRABALHARAM NA LAVOURA. A DIFERENÇA É QUE ESCRAVA ISAURA FEZ MAIS SUCESSO QUE TERRA NOSTRA.


Ok. O que acabei de dizer foi uma piada de mau gosto porque eu não disse nela como os pretos sofreram mais que os italianos. Ok. Eu sei que os negros sofreram mais que qualquer raça no Brasil. Foram chicoteados. Torturados. Foi algo tão desumano que só um ser humano seria capaz de fazer igual. Brancos caçaram negros como animais. Mas também os compraram de outros negros. Sim. Ser dono de escravo nunca foi privilégio caucasiano, e sim da sociedade dominante. Na África, uma tribo vencedora escravizava a outra e as vendia para os brancos sujos.


Lembra que eu disse que era ítalo-descendente? Então. Os italianos podem nunca ter escravizados os pretos, mas os romanos escravizaram os judeus. E eles já se vingaram de mim com juros e correção monetária, pois já fui escravo durante anos de um carnê das Casas Bahia.


Se é engraçado piada de gay e gordo, por que não é a de preto? Porque foram escravos no passado hoje são café com leite no mundo do humor? É isso? Eu posso fazer a piada com gay só porque seus ancestrais nunca foram escravos? Pense bem, talvez o gay na infância também tenha sofrido abusos de alguém mais velho com o chicote.


Se você acha que vai impor respeito me obrigando a usar o termo "negro" ou "afrodescendente" , tudo bem, eu posso fazer isso só pra agradar. Na minha cabeça, você será apenas preto e eu, branco, da mesma raça - a raça humana. E você nunca me verá por aí com uma camiseta escrita "100% humano", pois não tenho orgulho nenhum de ser dessa raça que discute coisas idiotas de uma forma superficial e discrimina o próprio irmão."

sábado, 28 de janeiro de 2012

O CRACK, O BBB E A RESISTÊNCIA HUMANA




Eu sempre me surpreendo com a capacidade de resistência do corpo humano. Quando acho que nosso organismo é fraco, acontece alguma coisa, ou comigo ou com alguém próximo de mim, que me mostra como nosso corpo é capaz de resistir às mais bruscas variações de ambiente. Basicamente, se a gente sair do deserto do Atacama e andar por um caminho hipotético até o topo do Monte Everest, num intervalo de 24 horas, a gente sobrevive. Claro, tem gente que morre, mas isso só acontece porque a gente é gente.

A gente só morre porque é gente.

Mas existem humanos verdadeiramente resistentes, que permanecem aí, por muito mais tempo que os outros membros de suas famílias, muito mais que seus amigos, que enterram todos os conhecidos e até mesmo os filhos.

É claro que a gente acaba se acostumando com referências ridículas de resistência humana, como os participantes do BBB, e acha que ser resistente de verdade é ficar um dia dentro de um carro com outras pessoas, pra ganhar esse carro no final do processo, no meio de um enorme pólo estrutural cravado em plena Mata Atlântica, num dos lugares mais agradáveis do planeta. Isso não é ser resistente, gente. Isso é ser preguiçoso.

Agora a gente olha para a cracolândia, em São Paulo, e tem uma amostra real do quão ferrado um corpo pode estar, mas ainda assim aguentar um pouco mais de tranco e avaria. Tem gente ali que só come pão, cachaça e crack há anos e ainda está na rua, jogando pedra em equipe de jornalismo da Globo. Quer dizer, ainda acha ânimo pra começar uma revolução.

É por isso que as pessoas estão alvoroçadas com a cracolândia. Porque ali pode estar o centro duma revolução. Cheirando a pombo e cachaça.

É claro que os governantes não perceberam um pequeno detalhe antes de começar essa patética ação de limpeza humana: que a cracolândia, senhores, é móvel. Ela não existe realmente, ela só existe dentro das cabeças das pessoas e, por isso, ela é indestrutível e continuará em movimento. Se o governo quer ajudar os viciados (o que já ficou claro que não é a intenção principal nesta ação) será preciso entrar nas cabeças dessas pessoas. Que não as tratem como lixo puro. É por isso que devemos parar de usar o termo “limpeza”. Eu usei. Eu peço desculpas.



Eu olho para aquelas pessoas e não consigo parar de pensar que muitos devem estar ali porque falaram a verdade. Porque foram honestos. Porque não aceitaram as imposições de uma família autoritária. Porque simplesmente não aceitaram. Muitos fugidos, claro. Às vezes dos maus tratos dos pais, muitas vezes dos assédios sexuais de membros próximos da família.

Não é o caso de defender todos os viciados, claro que não, afirmando que eles não tiveram opção, eu não estou aqui na função de defender ninguém. Não seria muito existencialista da minha parte. Sei até que muitos ali são vagabundos da mais alta estirpe, que só querem usar drogas o tempo todo e vão aproveitar o embalo do momento para defender seus direitos de vagabundos com previdência.
O crack é a previdência do abandonado.

De um lado ou do outro a verdade é apenas uma: se a sociedade insistir nesta tática atual de “assistência” usando a força bruta da Polícia Militar de São Paulo (e ainda achar bonito) vai encontrar resistência, claro, muita resistência. E eficácia nenhuma. Os viciados vão para outros lugares. As pessoas ficarão mais violentas. Alguém já viu uma crise de abstinência de um viciado em crack? É dor pura.

E tudo isso acontece enquanto o crack da televisão brasileira, o Big Brother Basil, está no ar, com os mesmos índices de audiência de sempre. Tudo porque a gente tem medo de olhar a miséria pela janela. Tudo porque temos medo de que a miséria olhe de volta pra gente.
Ela olha, sempre; mas a gente desvia o olhar.
E liga a televisão.

Ah, a humanidade.
[CATO ALBERICO RIBEIRO]