Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente
imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca,
enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu
sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não
doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito
tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu
corpo (…). No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu
sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde
pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido
pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste
momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter
pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios.
Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a
descoser-se.
Fernando Pessoa